O projeto artístico e social CORPOEMCADEIA 26/27 iniciou este ano a sua implementação em dois novos estabelecimentos prisionais portugueses: o Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus e o Estabelecimento Prisional Feminino de Odemira.
As primeiras sessões começaram em março, em Vale de Judeus, com um grupo de 16 homens reclusos, e, mais recentemente, no mês de maio, arrancaram em Odemira com um grupo de 16 mulheres. O projeto decorrerá ao longo de dois anos, entre 2026 e 2027, estando previstos vários momentos públicos, encontros, mostras e dois espetáculos.
A partir de um modelo que combina a dança contemporânea com uma abordagem terapêutico-somática informada pela psicoterapia Gestalt, o projeto propõe um trabalho de ação e reflexão coletiva envolvendo artistas, psicoterapeutas e comunidade prisional. A bailarina e criadora Catarina Câmara é a diretora artística do projeto, que, em ambos os estabelecimentos prisionais conta com artistas e terapeutas, garantindo assim uma abordagem simultaneamente estética, terapêutica e social.
Ao longo das sessões, são criados espaços de encontro onde os corpos experimentam tensões, limites e dilemas éticos através do movimento e do contacto com o outro. O projeto pretende abordar a problemática da criminalidade e a complexidade das estruturas de violência (física, psíquica, institucional e cultural) de forma reparadora e transformadora. Os processos artísticos desenvolvidos culminam em criações que tornam visível uma realidade frequentemente oculta, promovendo o encontro entre a comunidade prisional e a sociedade civil.
CORPOEMCADEIA inscreve-se assim no campo das práticas artísticas para a inclusão e transformação social. O projeto promove o acesso e a participação cultural de pessoas em situação de privação de liberdade, criando condições para o desenvolvimento do potencial e da dignidade humanas.
Na sexta-feira, dia 29 de maio, na Feira do Livro de Lisboa vai ser apresentado o livro corpoemcadeia: arte, prisão e gestalt na Feira do Livro de Lisboa, seguido de uma conversa com a autora Catarina Câmara e a jornalista Ana Cristina Pereira.
A edição 2026/2027 de CORPOEMCADEIA é promovida pela Associação Creative Connection, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e de uma rede de parceiros artísticos, sociais e académicos. O projeto nasceu em 2019 no Estabelecimento Prisional do Linhó, no âmbito da iniciativa PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, da Fundação Calouste Gulbenkian. A implementação no Linhó e, mais recentemente, no Centro Educativo Padre António Oliveira, em Caxias, é promovida pela Companhia Olga Roriz.
Para mais informações, por favor contactar:
Rita Bonifácio | 918453750 | ritabonifacio@paristexas.pt
Sobre o projeto
CORPOEMCADEIA tem como missão dignificar e dar visibilidade às pessoas em situação de privação de liberdade, contribuindo para a humanização das prisões e para o pensamento crítico sobre o sistema prisional e sobre as estruturas de violência.
As metodologias do projeto constituem um campo vivo de investigação, no qual os modelos teórico-práticos da Dança Contemporânea e da Psicoterapia Gestalt se ajustam e potenciam mutuamente através de uma escuta centrada no “aqui e agora”. O trabalho é desenvolvido por uma dupla co-criativa — artista e psicoterapeuta — integrando práticas estéticas, terapêuticas e sociais numa abordagem simultaneamente poética, ética e política.
Catarina Câmara: direção artística
Bailarina, criadora, educadora e investigadora colaboradora do Instituto de Direito Penal e Ciências Criminais da Faculdade de Direito de Lisboa. Licenciada em Direito (FDUL) e em Dança (ESD-IPL), com formação em Justiça Restaurativa (EFRJ - Bélgica e ISCSP) e como counselor em Psicoterapia Gestalt (IFG - Itália). O seu trabalho desenvolve-se em torno das práticas artísticas centradas no corpo e na relação, na ética do cuidado e em modelos alternativos à justiça tradicional, como a justiça restaurativa e transformadora. Desenvolve e implementa metodologias artísticas e participativas num movimento de integração do corpo poético, político e psicossocial, aplicadas em diversos contextos comunitários e institucionais - escolas, prisões, universidades e instituições culturais. Desde 2019, dirige o CORPOEMCADEIA, projeto artístico para inclusão social, desenvolvido em meio prisional. Publicou artigos em jornais e é autora do livro corpoemcadeia - dança, prisão e gestalt: práticas além do bem e do mal, editado em 2026 pela Fundação Calouste Gulbenkian.